Legal e Conformidade
Antes e depois proibido: como divulgar seu trabalho sem infringir o código de ética
A Resolução CFN 856/2026 proibiu o antes e depois — e quase ninguém explicou o que fazer agora. Guia prático de divulgação ética, do destino dos posts antigos e do que ainda pode mudar na norma.
Sim: o antes e depois de nutricionista está proibido. A Resolução CFN nº 856/2026, que aprovou o novo Código de Ética e Conduta do nutricionista, veda a divulgação de imagens e resultados de pacientes nesse formato — e a regra alcança muito mais do que a foto de comparação.
A imprensa cobriu a proibição em peso; quase ninguém explicou o que fazer agora. Este guia responde as perguntas práticas: o que exatamente saiu da sua divulgação, o que fazer com os posts antigos, como continuar mostrando competência nas redes e o que ainda pode mudar na norma.
O que a Resolução CFN 856/2026 proíbe exatamente?
Segundo a Resolução CFN nº 856/2026, está vedado usar, para demonstrar resultados do acompanhamento nutricional:
- imagens corporais de pacientes no formato antes e depois;
- informações de composição corporal, como dados de bioimpedância e dobras cutâneas;
- exames e dados laboratoriais;
- gráficos de evolução;
- conteúdos produzidos com auxílio de inteligência artificial que simulem ou demonstrem resultados.
Dois pontos derrubam as brechas mais cogitadas. Primeiro: a vedação vale mesmo com autorização do paciente — o consentimento não libera a publicação. Segundo: a lista inclui conteúdo gerado por IA, o que fecha a porta para simulações de resultado.
A resolução foi publicada em abril de 2026 com prazo de 90 dias para entrar em vigor — ou seja, está valendo desde o fim de julho.
Por que o antes e depois de nutricionista foi proibido?
O argumento central do CFN é que a comparação de imagens não representa a complexidade do cuidado nutricional. Um resultado individual depende de contexto, condição de saúde, adesão e tempo — e nada disso cabe em duas fotos lado a lado.
Há também o efeito sobre quem vê: o antes e depois vende a expectativa de que aquele resultado é replicável e rápido, empurrando a profissão para a lógica da promessa — terreno que sempre foi delicado no exercício profissional em saúde.
O que fazer com os posts antigos?
A norma não veio com manual de transição, então o caminho é de prudência. Três movimentos práticos:
- inventarie o seu feed e identifique tudo o que se enquadra no formato vedado: comparativos de fotos, prints de bioimpedância, gráficos de evolução de pacientes;
- arquive ou despublique esses conteúdos, começando pelos mais recentes e pelos que foram impulsionados;
- na dúvida sobre um conteúdo específico, consulte o CRN da sua região antes de mantê-lo no ar.
Post antigo continua público e continua funcionando como divulgação. Tratá-lo como página virada é um risco que não vale o alcance.
E a revisão não termina no seu perfil: se alguém cuida das suas redes — social media, secretária, agência —, essa pessoa precisa conhecer a regra antes do próximo post agendado. A vedação também não distingue formato ou canal: vale para feed, stories, site, material impresso e apresentação em evento.
Como divulgar o trabalho sem antes e depois?
O que a norma restringe é a exibição de resultado individual de paciente; o que constrói autoridade continua liberado. Na prática:
- conteúdo educativo sobre alimentação, mitos e dúvidas frequentes do público que você atende;
- o seu método: como funciona a primeira consulta, o que envolve uma anamnese completa, como você acompanha a evolução ao longo do tratamento;
- bastidores da rotina clínica, formação, especialização e participação em eventos;
- conteúdo de nicho — materno-infantil, esportiva, oncológica: quanto mais específico, menos a divulgação depende de foto de resultado.
A pergunta que o antes e depois respondia — "esse profissional entrega resultado?" — passa a ser respondida por consistência: profundidade do conteúdo, clareza do método e recomendação de quem já é paciente. É um jogo mais lento que o da foto de impacto, mas é o único que não depende de expor quem você atende.
A proibição ainda pode mudar?
Pode haver ajustes. Depois da reação da categoria, o CFN adiou o lançamento oficial do novo código e abriu a campanha "Nutricionista, queremos te ouvir": escuta presencial durante o Conbran 2026, realizado de 12 a 15 de maio em Curitiba, e consulta pública virtual no site do conselho, aberta de 13 de maio a 13 de junho.
As contribuições recebidas podem resultar em revisão de artigos — mas, até que qualquer mudança seja publicada, a norma segue vigente em todo o país. Quando o CFN concluir essa etapa, este artigo será atualizado.
Onde o resultado do paciente continua tendo valor?
No lugar onde ele sempre valeu mais: dentro do atendimento. A evolução registrada em prontuário — anamnese inicial, medidas, exames, condutas e reavaliações consulta a consulta — é a prova de resultado que interessa a quem importa: o próprio paciente.
Um histórico bem registrado permite abrir a consulta de retorno mostrando o caminho percorrido, com dados que a rede social nunca poderia exibir. É retenção construída sobre registro clínico, não sobre audiência — e é aqui que a organização do consultório pesa: quando anamnese, evolução e agenda de retornos vivem em um sistema de gestão, esse comparativo está pronto a cada reavaliação, sem planilha paralela.
Conclusão
O antes e depois de nutricionista está proibido pela Resolução CFN nº 856/2026 — incluindo composição corporal, exames, gráficos e imagens geradas por IA, mesmo com autorização do paciente. A escuta aberta pelo CFN pode ajustar pontos da norma, mas ela está em vigor agora, e é com ela que sua divulgação precisa conviver.
A boa notícia: divulgação ética não é divulgação fraca. Conteúdo educativo e método claro atraem pacientes novos; e o resultado, registrado no prontuário, continua sendo seu melhor argumento de retenção — apresentado a quem ele pertence.