Financeiro
Fluxo de caixa na clínica de fisioterapia: como montar e o erro do pacote pago adiantado
O pacote entra no caixa de uma vez, mas as sessões são entregues ao longo de semanas. Veja como montar o fluxo de caixa e não gastar dinheiro de atendimento que ainda não aconteceu.
O fluxo de caixa da clínica de fisioterapia é o registro, dia a dia, de todo dinheiro que entra e sai — e, na fisioterapia, ele precisa separar o valor recebido do atendimento já realizado. Sem essa separação, o pacote pago adiantado aparece como sobra no caixa, e você gasta hoje o dinheiro das sessões que ainda vai entregar.
Os guias de fluxo de caixa para clínicas costumam tratar toda entrada como receita do mês. Para quem vende pacote, essa leitura engana: um mês de muitas vendas parece ótimo, e o mês seguinte, com a agenda cheia de sessões já pagas, parece um desastre.
O caminho é montar o fluxo com as categorias certas e criar uma segunda coluna mental: quanto do saldo ainda é "dívida de serviço" com o paciente.
O que entra no fluxo de caixa da clínica de fisioterapia?
Do lado das entradas, registre cada recebimento na data em que o dinheiro fica disponível, não na data da venda. Separe por origem:
- sessões avulsas pagas no dia;
- pacotes pagos à vista;
- parcelas de pacote no cartão, cada uma na data em que a operadora repassa;
- convênios, na data do pagamento efetivo, não do faturamento;
- outras receitas, como avaliações e aluguel de sala.
Essa separação mostra de onde vem o dinheiro e quanto depende de prazos que você não controla, como o repasse do convênio.
Quais saídas não podem faltar?
As saídas se dividem em três grupos, e misturar os três é o que impede a leitura do caixa.
Custos fixos, que existem com a agenda cheia ou vazia:
- aluguel, condomínio e contas da sala;
- pró-labore e salários da recepção;
- sistema, contador e manutenção de equipamentos.
Custos variáveis, que crescem com o volume de atendimentos:
- repasse ou comissão dos fisioterapeutas;
- taxa da maquininha e antecipação de recebíveis;
- materiais de consumo, como eletrodos, gel e bandagens.
Tributos, que acompanham o faturamento:
- o imposto sobre a receita, calculado pelo seu contador conforme o regime da clínica;
- a contribuição ao conselho e demais encargos anuais, lançados no mês em que vencem.
Um cuidado com o repasse: se o fisioterapeuta recebe por sessão realizada, a saída acontece quando ele atende, não quando o paciente paga o pacote. É mais um motivo para não tratar a venda do pacote como dinheiro livre.
Por que o pacote pago adiantado distorce o caixa?
Imagine um pacote de dez sessões vendido por R$ 1.200 em setembro, com atendimentos entre setembro e outubro. O caixa de setembro recebe os R$ 1.200 inteiros. Mas em outubro você ainda vai pagar sala, repasse e material de sessões que não geram nenhuma entrada nova.
Se o saldo de setembro foi usado como lucro, outubro começa com as despesas das sessões e sem o dinheiro que as pagaria. Multiplique isso por vinte pacotes e a clínica "fatura bem" e fica sem caixa ao mesmo tempo.
A saída é simples de entender: o dinheiro do pacote só vira receita sua quando a sessão acontece. Até lá, é um valor que você guarda em nome do paciente.
Como separar o recebido do realizado?
Na prática, acompanhe dois números além do saldo bancário:
- Recebido: tudo que entrou no período, de sessões e pacotes.
- Realizado: o valor das sessões efetivamente atendidas no período, calculado pelo preço unitário do pacote (R$ 1.200 divididos por dez sessões dão R$ 120 por atendimento).
A diferença acumulada entre os dois é o saldo de pacotes em aberto. Esse valor não deveria ser gasto: ele cobre sala, repasse e material das sessões que ainda vão acontecer.
Uma regra prática é manter esse saldo reservado, numa conta separada ou ao menos marcado no controle, e só liberar para uso o que foi realizado. Quando um paciente cancela, o mesmo número indica quanto pode ter de ser devolvido, conforme o contrato do pacote.
Como fazer a leitura semanal do fluxo de caixa?
Uma revisão de quinze minutos por semana basta, desde que siga sempre a mesma ordem:
- confira se todas as entradas da semana foram lançadas e batem com o extrato e com o relatório da maquininha;
- compare recebido e realizado e atualize o saldo de pacotes em aberto;
- subtraia esse saldo do dinheiro em conta: o que sobra é o que está de fato livre;
- olhe as saídas das próximas quatro semanas, principalmente aluguel, repasses e impostos;
- veja os pacotes perto do fim e os pagamentos atrasados, que são as entradas mais incertas.
Se o dinheiro livre não cobre as saídas previstas, você sabe com semanas de antecedência, e não no dia do aluguel. Pagamentos atrasados entram na mesma revisão, com a régua de cobrança que você já usa.
Onde a rotina do consultório alimenta o financeiro?
O fluxo de caixa só é confiável se nasce da agenda. Cada sessão realizada precisa baixar o saldo do pacote, gerar o repasse do profissional e aparecer como receita realizada, no mesmo registro em que você anota a evolução no prontuário.
Quando isso depende de uma planilha paralela, basta uma semana cheia para as presenças não serem lançadas e o saldo de pacotes ficar errado. Em um sistema de gestão, a confirmação do atendimento na agenda faz o desconto do pacote, o recebimento entra no financeiro já com a nota fiscal vinculada e o relatório de recebido e realizado sai pronto, sem retrabalho no fim do mês.
Conclusão
Montar o fluxo de caixa da clínica de fisioterapia é registrar entradas e saídas com as categorias certas: fixos, variáveis, repasse, taxa de cartão e imposto. O que muda na fisioterapia é o pacote: o dinheiro chega antes da sessão, e tratá-lo como lucro compromete os meses seguintes.
Separe o recebido do realizado, reserve o saldo de pacotes em aberto e faça a leitura toda semana. Com isso, o saldo em conta passa a mostrar o que é seu de fato e o que você ainda deve em atendimento.