Financeiro
Psicólogo pode oferecer primeira sessão gratuita? O que o Código de Ética permite
Não cobrar a entrevista inicial é uma decisão sua; anunciar “primeira sessão grátis” é usar o preço como propaganda. Veja onde passa a linha e como registrar essa sessão.
Psicólogo pode oferecer sessão gratuita? Pode deixar de cobrar a primeira sessão, desde que isso seja combinado com o paciente antes do atendimento. O que não pode é anunciar "primeira sessão grátis" em post, bio, site ou anúncio: aí a gratuidade vira propaganda pelo preço, e o Código de Ética veda isso.
A entrevista inicial funciona como triagem, e a decisão de não cobrá-la é legítima. O problema está em como ela é comunicada e registrada.
O que o Código de Ética diz sobre cobrar a primeira sessão?
O Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP nº 010/2005, trata da remuneração no artigo 4º. Ao fixar o valor do trabalho, o psicólogo:
- leva em conta a justa retribuição pelo serviço e as condições do usuário ou beneficiário;
- estipula o valor conforme as características da atividade e o comunica antes do início do trabalho;
- assegura a qualidade do serviço independentemente do valor acordado.
O Código não obriga a cobrar toda sessão; obriga a combinar o valor antes e a manter o padrão técnico. Uma entrevista inicial sem custo, acertada antes, cabe nessa lógica.
A contrapartida vem na alínea "c": a sessão não cobrada tem a mesma duração, o mesmo cuidado e o mesmo registro de uma sessão paga.
Por que anunciar "primeira sessão grátis" é proibido?
O artigo 20 do mesmo Código lista o que o psicólogo deve observar ao promover publicamente seus serviços, por quaisquer meios. A alínea "d" determina que ele não utilizará o preço do serviço como forma de propaganda.
A Nota Técnica CFP nº 01/2022, sobre publicidade nas redes sociais, detalha a regra: orienta a não usar termos como "preço social", "desconto", "pacote promocional", "valor acessível" e demais termos que façam referência a vantagem financeira do serviço, e informa que cupons promocionais e sorteios não são permitidos.
"Grátis" é a vantagem financeira no seu grau máximo. Um post com "primeira consulta gratuita" usa o preço, que no caso é zero, para atrair paciente. É exatamente o que o art. 20 veda.
Algumas situações comuns que entram na vedação:
- bio do Instagram com "1ª sessão gratuita";
- anúncio pago com "agende sua avaliação sem custo";
- página de site ou perfil em plataforma com "primeira conversa grátis" em destaque.
Qual a diferença entre anunciar e combinar em particular?
A linha está entre o que é público e o que é acordado com uma pessoa específica.
Quando alguém pergunta o valor, você informa as condições do seu trabalho, como o art. 4º exige. Se a sua política é não cobrar a entrevista inicial, dizer isso na conversa individual é informar o valor, não fazer propaganda.
Alguns cuidados mantêm a separação:
- a gratuidade não aparece em nenhum material de divulgação, nem de forma indireta;
- a informação é dada só a quem pergunta, junto com o valor das sessões seguintes;
- fica claro, antes da sessão, que a partir do segundo encontro há cobrança e qual é o valor;
- a regra é a mesma para todos os pacientes, e não um "benefício" oferecido para fechar com quem hesita.
Esse último ponto importa: se a sessão gratuita vira moeda de negociação, passa a funcionar como estratégia de captação. A mesma Nota Técnica considera inadequado o atendimento voluntário com a finalidade de captação de clientes, e o art. 2º, alínea "i", do Código veda induzir qualquer pessoa a recorrer aos seus serviços. A entrevista sem custo se sustenta como critério clínico de triagem, não como isca comercial.
Vale a pena não cobrar a entrevista inicial?
Depende do seu consultório. O Código de Ética não obriga a cobrar nem a deixar de cobrar a entrevista inicial; o limite, como visto, está em anunciar a gratuidade ou usá-la para captar pacientes.
Argumentos que costumam pesar a favor de cobrar:
- a primeira sessão já é trabalho clínico: acolhimento, escuta, análise da demanda;
- cobrar desde o início ajuda a estabelecer o enquadre e o valor do atendimento;
- horário ocupado por entrevista gratuita é horário que deixa de gerar receita.
Argumentos a favor de não cobrar:
- reduz a barreira para quem nunca fez terapia e está inseguro;
- permite avaliar se a demanda é do seu campo antes de assumir o caso e, se não for, encaminhar sem custo para a pessoa.
Se optar por não cobrar, defina um limite: uma única sessão, com duração igual às demais, e cobrança combinada antes dela para os encontros seguintes. Sem esse contorno, a gratuidade escorrega para duas ou três sessões "de avaliação".
Como registrar a sessão não cobrada no prontuário e no financeiro?
A sessão sem cobrança é atendimento, e a Resolução CFP nº 001/2009 torna obrigatório o registro documental dos serviços psicológicos prestados. Isso inclui a primeira sessão, mesmo quando o paciente não segue no processo.
No prontuário, registre como qualquer outro atendimento:
- identificação do paciente;
- avaliação da demanda e definição dos objetivos do trabalho;
- o que foi combinado sobre continuidade, encaminhamento ou encerramento.
No financeiro, a sessão deve aparecer com valor zero, e não simplesmente sumir. Marque o atendimento com um tipo de cobrança próprio, como "entrevista inicial sem custo". Assim você enxerga quantas horas por mês vão para triagens gratuitas e quantas delas viram acompanhamento.
Guarde também a mensagem em que o paciente confirma as condições: primeira sessão sem cobrança e valor definido para as seguintes.
Como organizar isso na rotina do consultório?
Quando a política da primeira sessão vive só na sua cabeça, os detalhes escapam: a triagem não é anotada no financeiro e a cobrança da segunda sessão fica para "depois".
Um sistema de gestão ajuda a fixar a regra no fluxo. Você define o valor por tipo de atendimento, a entrevista inicial entra na agenda com cobrança zerada e o prontuário fica vinculado ao mesmo cadastro. A partir da segunda sessão, a cobrança já está configurada com o valor combinado.
Conclusão
Deixar de cobrar a primeira sessão é uma escolha que o art. 4º do Código de Ética comporta, desde que as condições sejam informadas antes e a qualidade do atendimento seja a mesma. Anunciar essa gratuidade, em qualquer meio, esbarra no art. 20, alínea "d", que proíbe usar o preço como propaganda.
Combine em particular, cobre a partir da segunda sessão com valor já informado, registre a entrevista no prontuário e marque-a no financeiro. Assim a triagem sem custo fica como política do consultório, e não como promoção.
Este blog é do Singular Psi, o sistema para psicólogos com prontuário, agenda e financeiro em um só lugar.