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Financeiro

Psicólogo pode oferecer primeira sessão gratuita? O que o Código de Ética permite

Não cobrar a entrevista inicial é uma decisão sua; anunciar “primeira sessão grátis” é usar o preço como propaganda. Veja onde passa a linha e como registrar essa sessão.

09/10/2026 • 8 min

Psicólogo pode oferecer sessão gratuita? Pode deixar de cobrar a primeira sessão, desde que isso seja combinado com o paciente antes do atendimento. O que não pode é anunciar "primeira sessão grátis" em post, bio, site ou anúncio: aí a gratuidade vira propaganda pelo preço, e o Código de Ética veda isso.

A entrevista inicial funciona como triagem, e a decisão de não cobrá-la é legítima. O problema está em como ela é comunicada e registrada.

O que o Código de Ética diz sobre cobrar a primeira sessão?

O Código de Ética Profissional do Psicólogo, aprovado pela Resolução CFP nº 010/2005, trata da remuneração no artigo 4º. Ao fixar o valor do trabalho, o psicólogo:

  • leva em conta a justa retribuição pelo serviço e as condições do usuário ou beneficiário;
  • estipula o valor conforme as características da atividade e o comunica antes do início do trabalho;
  • assegura a qualidade do serviço independentemente do valor acordado.

O Código não obriga a cobrar toda sessão; obriga a combinar o valor antes e a manter o padrão técnico. Uma entrevista inicial sem custo, acertada antes, cabe nessa lógica.

A contrapartida vem na alínea "c": a sessão não cobrada tem a mesma duração, o mesmo cuidado e o mesmo registro de uma sessão paga.

Por que anunciar "primeira sessão grátis" é proibido?

O artigo 20 do mesmo Código lista o que o psicólogo deve observar ao promover publicamente seus serviços, por quaisquer meios. A alínea "d" determina que ele não utilizará o preço do serviço como forma de propaganda.

A Nota Técnica CFP nº 01/2022, sobre publicidade nas redes sociais, detalha a regra: orienta a não usar termos como "preço social", "desconto", "pacote promocional", "valor acessível" e demais termos que façam referência a vantagem financeira do serviço, e informa que cupons promocionais e sorteios não são permitidos.

"Grátis" é a vantagem financeira no seu grau máximo. Um post com "primeira consulta gratuita" usa o preço, que no caso é zero, para atrair paciente. É exatamente o que o art. 20 veda.

Algumas situações comuns que entram na vedação:

  • bio do Instagram com "1ª sessão gratuita";
  • anúncio pago com "agende sua avaliação sem custo";
  • página de site ou perfil em plataforma com "primeira conversa grátis" em destaque.

Qual a diferença entre anunciar e combinar em particular?

A linha está entre o que é público e o que é acordado com uma pessoa específica.

Quando alguém pergunta o valor, você informa as condições do seu trabalho, como o art. 4º exige. Se a sua política é não cobrar a entrevista inicial, dizer isso na conversa individual é informar o valor, não fazer propaganda.

Alguns cuidados mantêm a separação:

  • a gratuidade não aparece em nenhum material de divulgação, nem de forma indireta;
  • a informação é dada só a quem pergunta, junto com o valor das sessões seguintes;
  • fica claro, antes da sessão, que a partir do segundo encontro há cobrança e qual é o valor;
  • a regra é a mesma para todos os pacientes, e não um "benefício" oferecido para fechar com quem hesita.

Esse último ponto importa: se a sessão gratuita vira moeda de negociação, passa a funcionar como estratégia de captação. A mesma Nota Técnica considera inadequado o atendimento voluntário com a finalidade de captação de clientes, e o art. 2º, alínea "i", do Código veda induzir qualquer pessoa a recorrer aos seus serviços. A entrevista sem custo se sustenta como critério clínico de triagem, não como isca comercial.

Vale a pena não cobrar a entrevista inicial?

Depende do seu consultório. O Código de Ética não obriga a cobrar nem a deixar de cobrar a entrevista inicial; o limite, como visto, está em anunciar a gratuidade ou usá-la para captar pacientes.

Argumentos que costumam pesar a favor de cobrar:

  • a primeira sessão já é trabalho clínico: acolhimento, escuta, análise da demanda;
  • cobrar desde o início ajuda a estabelecer o enquadre e o valor do atendimento;
  • horário ocupado por entrevista gratuita é horário que deixa de gerar receita.

Argumentos a favor de não cobrar:

  • reduz a barreira para quem nunca fez terapia e está inseguro;
  • permite avaliar se a demanda é do seu campo antes de assumir o caso e, se não for, encaminhar sem custo para a pessoa.

Se optar por não cobrar, defina um limite: uma única sessão, com duração igual às demais, e cobrança combinada antes dela para os encontros seguintes. Sem esse contorno, a gratuidade escorrega para duas ou três sessões "de avaliação".

Como registrar a sessão não cobrada no prontuário e no financeiro?

A sessão sem cobrança é atendimento, e a Resolução CFP nº 001/2009 torna obrigatório o registro documental dos serviços psicológicos prestados. Isso inclui a primeira sessão, mesmo quando o paciente não segue no processo.

No prontuário, registre como qualquer outro atendimento:

  • identificação do paciente;
  • avaliação da demanda e definição dos objetivos do trabalho;
  • o que foi combinado sobre continuidade, encaminhamento ou encerramento.

No financeiro, a sessão deve aparecer com valor zero, e não simplesmente sumir. Marque o atendimento com um tipo de cobrança próprio, como "entrevista inicial sem custo". Assim você enxerga quantas horas por mês vão para triagens gratuitas e quantas delas viram acompanhamento.

Guarde também a mensagem em que o paciente confirma as condições: primeira sessão sem cobrança e valor definido para as seguintes.

Como organizar isso na rotina do consultório?

Quando a política da primeira sessão vive só na sua cabeça, os detalhes escapam: a triagem não é anotada no financeiro e a cobrança da segunda sessão fica para "depois".

Um sistema de gestão ajuda a fixar a regra no fluxo. Você define o valor por tipo de atendimento, a entrevista inicial entra na agenda com cobrança zerada e o prontuário fica vinculado ao mesmo cadastro. A partir da segunda sessão, a cobrança já está configurada com o valor combinado.

Conclusão

Deixar de cobrar a primeira sessão é uma escolha que o art. 4º do Código de Ética comporta, desde que as condições sejam informadas antes e a qualidade do atendimento seja a mesma. Anunciar essa gratuidade, em qualquer meio, esbarra no art. 20, alínea "d", que proíbe usar o preço como propaganda.

Combine em particular, cobre a partir da segunda sessão com valor já informado, registre a entrevista no prontuário e marque-a no financeiro. Assim a triagem sem custo fica como política do consultório, e não como promoção.

Este blog é do Singular Psi, o sistema para psicólogos com prontuário, agenda e financeiro em um só lugar.

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