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Legal e Conformidade

Toxina botulínica falsificada: como conferir o lote antes de aplicar e rastrear cada frasco na clínica

A Anvisa mandou apreender um lote falsificado de Dysport 500U. O que interessa à clínica é a rotina: conferência na compra, quarentena do frasco suspeito, notificação e lote registrado em cada sessão.

21/09/2026 8 min

Para não aplicar toxina botulínica falsificada, a conferência precisa acontecer em dois momentos: na compra, quando o frasco entra na clínica, e na sessão, quando o lote é anotado na ficha do cliente. A primeira barreira evita o produto irregular; a segunda diz em quem ele foi usado se um alerta sair depois.

O alerta mais recente mostra por que as duas importam. Pela Resolução-RE nº 3.356, de 26 de agosto de 2026, publicada no Diário Oficial da União e divulgada pela Anvisa em 27 de agosto, a agência determinou a apreensão do lote P22686 (COMP-007736) do Dysport 500U.

A técnica de aplicação é assunto clínico e fica fora daqui. Este texto trata da parte administrativa: o que conferir, o que fazer com um frasco suspeito e como garantir que o lote chegue até o registro de cada sessão.

O que a Anvisa informou sobre o lote falsificado?

Segundo a notícia publicada pela Anvisa em 27 de agosto de 2026, quem identificou a irregularidade foi a Beaufour Ipsen Farmacêutica, detentora do registro do Dysport no Brasil. Dois fatos sustentaram a apreensão:

  • a empresa informou que o lote P22686 (COMP-007736) nunca foi importado por ela;
  • as características do rótulo do produto falsificado não são compatíveis com as do medicamento original.

É só isso que a nota diz. Ela não descreve onde o lote circulou nem quantos frascos existem. Por isso a pergunta útil para a clínica não é "esse lote passou por aqui?", e sim "eu conseguiria responder a essa pergunta em cinco minutos?".

Como conferir a toxina botulínica antes de comprar e aplicar?

A conferência de compra é a mesma para qualquer marca e vale fazer em todo pedido, não só quando sai um alerta:

  • Fornecedor regularizado: compre de distribuidor idôneo e regularizado — foi o que o Sincofarma-SP recomendou às farmácias ao repercutir o alerta, e o critério vale igualmente para a clínica. Preço muito abaixo do mercado e venda por rede social são sinais para parar.
  • Nota fiscal com lote: a nota deve identificar o produto e, de preferência, o lote e a validade. Nota genérica, sem descrição, não serve como prova de origem.
  • Registro na Anvisa: confira o produto na consulta de medicamentos regularizados do site da Anvisa, e não pela palavra do representante.
  • Embalagem e rótulo: compare com um frasco de origem conhecida — impressão, lacre, dados do lote e validade. Rótulo incompatível com o original foi justamente um dos motivos do alerta de agosto.
  • Lote contra alertas: antes de dar entrada, pesquise o número do lote nas publicações recentes da Anvisa.

Se tudo confere, o frasco entra no estoque com lote, validade, fornecedor e número da nota. Se algo não confere, ele não entra.

O que fazer com um frasco suspeito?

Suspeita não se resolve aplicando "só dessa vez". O caminho prático:

  • Quarentena: separe o frasco, identifique como "suspeito — não usar" e guarde longe do estoque em uso, nas condições de conservação indicadas. Se houver mais unidades do mesmo lote, todas vão junto.
  • Documentação: fotografe embalagem, rótulo e lote, e guarde a nota fiscal e a conversa com o fornecedor.
  • Contato com o fabricante: o detentor do registro consegue dizer se aquele lote foi importado por ele — foi assim que o caso do Dysport veio à tona.
  • Notificação: segundo a página de notificações da Anvisa, suspeita de produto falsificado é uma queixa técnica, e profissionais a registram no Notivisa. Evento adverso em cliente vai por outro canal, o VigiMed.

O que se notifica é a suspeita; a confirmação cabe à vigilância sanitária e ao detentor do registro. Registrar cedo dá às autoridades a chance de agir enquanto o lote ainda circula.

Por que o lote tem de estar no estoque e na ficha de cada sessão?

Quando um alerta sai, a primeira pergunta é se o lote passou pela clínica. A segunda, mais difícil, é em quais clientes ele foi aplicado. Só um registro contínuo responde às duas:

  • No estoque: cada entrada com lote, validade, fornecedor e nota; cada saída ligada a um atendimento.
  • Na sessão: produto, marca, lote, diluição, pontos, unidades aplicadas, data e profissional responsável.

Sem o lote na ficha, a clínica sabe que comprou o frasco, mas não sabe em quem usou. E, com vários frascos e lotes em uso ao mesmo tempo, só essa ligação separa os clientes que receberam o lote do alerta dos demais.

Com esse registro, a resposta a um alerta vira uma busca: lista de clientes atendidos com o lote, contato com cada um, orientação clínica e documentação do que foi feito. Sem ele, vira uma reconstrução de memória, agenda e nota fiscal.

Como encaixar a conferência na rotina da clínica?

A conferência só se sustenta quando faz parte do fluxo, e não quando depende de alguém lembrar. Em clínica com mais de um profissional, isso significa a mesma ficha, os mesmos campos obrigatórios e o mesmo estoque para todos.

Algumas decisões ajudam:

  • o lote é campo obrigatório no registro da sessão, e não observação livre;
  • a ficha de anamnese e o termo de consentimento ficam no mesmo cadastro do cliente, junto das evoluções;
  • em pacote de sessões, cada aplicação tem seu próprio registro de lote, porque o frasco da primeira sessão raramente é o da última;
  • a baixa do estoque sai do atendimento, para que o saldo e o histórico de lotes batam.

Um sistema de gestão que junta estoque, ficha do cliente e agenda faz essa ligação sem planilha paralela: o lote que deu entrada é o mesmo que aparece na evolução, e a busca por lote devolve os clientes atendidos.

Conclusão

O alerta do lote P22686 do Dysport 500U é um caso específico, mas a rotina que ele cobra vale para qualquer toxina: comprar de fornecedor regularizado, conferir registro, nota e rótulo, isolar e notificar o que não confere.

E, principalmente, levar o número do lote do estoque até a ficha de cada sessão. É esse registro que permite à clínica responder a um alerta com uma lista de nomes, e não com uma suposição.

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