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Produtividade

Carta de encaminhamento do nutricionista: modelo para médico, psicólogo e outros profissionais

Quase todo modelo publicado é de encaminhamento para o nutricionista. Este faz o caminho inverso: a carta que sai do seu consultório para o médico, o psicólogo ou o endocrinologista, bloco a bloco.

29/09/2026 • 8 min

Uma boa carta de encaminhamento do nutricionista cabe em uma página e tem cinco blocos: identificação, motivo do encaminhamento, dados antropométricos e dietéticos relevantes, sua avaliação nutricional e uma pergunta objetiva ao colega. O que faz a carta funcionar não é o tamanho, é a pergunta no fim: ela diz ao outro profissional o que você precisa saber de volta.

Quem procura um modelo pronto costuma esbarrar no problema contrário. Boa parte do que existe publicado, como protocolos de secretarias municipais de saúde, organiza o encaminhamento de outros serviços para a nutrição. O caminho que sai do seu consultório para o endocrinologista, o psicólogo ou o gastroenterologista quase não tem modelo.

Este guia monta a carta bloco a bloco, mostra a base normativa para encaminhar e compartilhar o dado do paciente e fecha no que muda na rotina do consultório.

O nutricionista tem o dever de encaminhar?

Tem. O código de ética em vigor, a Resolução CFN nº 599/2018, diz no art. 41 que é dever do nutricionista encaminhar a outros profissionais habilitados os indivíduos sob sua responsabilidade quando identificar que as atividades demandadas desviam-se de suas competências. O art. 40, logo antes, pede que você respeite os limites do seu campo, sem exercer atividades privativas de outros profissionais.

O novo código, a Resolução CFN nº 856/2026, já publicado no Diário Oficial da União e com vigência prevista para 23 de janeiro de 2027, mantém o dever no art. 55. E acrescenta, no art. 56, o dever de disponibilizar as informações necessárias à continuidade das ações pela equipe ou por outro profissional, com atenção à segurança e à proteção dos dados pessoais.

Na prática, os gatilhos mais comuns no consultório são:

  • suspeita de alteração metabólica ou hormonal que pede investigação médica;
  • sinais de transtorno alimentar, sofrimento psíquico ou uso de compensação;
  • exame alterado que foge da conduta nutricional;
  • sintoma gastrointestinal persistente sem diagnóstico;
  • uso de medicação que interfere no plano e precisa de ajuste pelo prescritor.

O que escrever na carta de encaminhamento do nutricionista?

Pense no colega que vai abrir a carta entre uma consulta e outra. Ele precisa entender em trinta segundos quem é o paciente, por que chegou até ele e o que você quer saber.

1. Identificação. Nome completo do paciente, data de nascimento e, se for o caso, o nome do profissional ou da especialidade de destino. No rodapé, a sua identificação: nome, profissão, número de inscrição no CRN, contato e assinatura.

2. Motivo do encaminhamento. Uma ou duas frases, sem rodeio. Exemplo: "Encaminho para avaliação endocrinológica por ganho de peso progressivo sem mudança de ingestão relatada e glicemia de jejum alterada em exame recente."

3. Dados relevantes. Só o que sustenta o motivo:

  • antropometria com data: peso, altura, IMC, circunferências, composição corporal se houver;
  • exames que você analisou, com data e valor de referência;
  • achados da anamnese alimentar: padrão de ingestão, restrições, sintomas;
  • medicamentos e suplementos em uso relatados pelo paciente.

4. Avaliação nutricional. Aqui entra o seu diagnóstico nutricional e a conduta em andamento, não um diagnóstico médico ou psicológico. Escreva "sinais compatíveis com" ou "achados que sugerem", e deixe a confirmação para quem tem a atribuição.

5. Pergunta ao colega. O bloco que mais falta nas cartas. Seja específico: "Há indicação de investigação para resistência insulínica? Alguma restrição à conduta de déficit calórico moderado?" Uma pergunta clara aumenta a chance de retorno por escrito.

Existe um modelo pronto para adaptar?

Um esqueleto que serve para médico, psicólogo ou fisioterapeuta, trocando só o conteúdo:

  • Ao(À) Dr(a). / Ao(À) colega de [especialidade]
  • Paciente: [nome completo], [data de nascimento]
  • Motivo: encaminho para [avaliação/acompanhamento] por [motivo em uma frase].
  • Dados relevantes: [antropometria com data]; [exames com data e referência]; [achados da anamnese]; [medicamentos em uso].
  • Avaliação nutricional: [diagnóstico nutricional]; conduta atual: [plano em curso].
  • Solicito: [pergunta objetiva]. Sigo com o acompanhamento nutricional e fico à disposição para discutir o caso.
  • [Cidade], [data] — [seu nome], nutricionista, CRN-[região] [número], [contato].

Para o psicólogo, troque antropometria detalhada por comportamentos observados. Para o médico, priorize exames e medicamentos.

Posso compartilhar dados de saúde do paciente com outro profissional?

Pode, com cuidado. A LGPD (Lei nº 13.709/2018) trata dado de saúde como dado pessoal sensível, e o art. 11, II, "f", na redação da Lei nº 13.853/2019, autoriza o tratamento sem consentimento quando indispensável para a tutela da saúde, exclusivamente, em procedimento realizado por profissionais de saúde.

O art. 20 do código de ética em vigor reforça o outro lado: o sigilo continua valendo. Três cuidados resolvem a maior parte:

  • envie só o necessário para a pergunta que você fez, não o prontuário inteiro;
  • prefira entregar a carta ao paciente ou usar um canal seguro, em vez de grupo de mensagens;
  • conte ao paciente o que está sendo enviado e por quê. Transparência evita desconforto e fortalece a adesão.

Como encaixar o encaminhamento na rotina do consultório?

A Resolução CFN nº 594/2017 determina que o nutricionista registre no prontuário do paciente, físico ou eletrônico, as informações clínicas e administrativas necessárias à tomada de decisão. O encaminhamento é uma decisão clínica e merece o mesmo registro.

O fluxo que evita retrabalho:

  • a carta é redigida a partir do prontuário, com identificação, antropometria e exames conferidos no registro, e não de memória;
  • uma cópia fica anexada à evolução daquela consulta, com data e motivo;
  • o retorno do paciente é marcado já pensando no tempo da resposta do colega;
  • no retorno, a resposta recebida entra no prontuário e a conduta é revista.

Sem esse fechamento, o encaminhamento vira papel solto e ninguém sabe se o paciente chegou a ir. Um sistema de gestão com prontuário, modelos de documento e agenda no mesmo lugar encurta a redação da carta e mantém o retorno no radar.

Conclusão

A carta de encaminhamento do nutricionista é curta quando é bem feita: identificação, motivo, os dados que sustentam o motivo, a sua avaliação nutricional e uma pergunta objetiva. O dever de encaminhar está no código de ética, e a LGPD permite compartilhar o necessário para a tutela da saúde.

O que separa o encaminhamento que funciona do que se perde é a rotina em volta dele: carta anexada à evolução, retorno marcado e resposta do colega registrada. Assim o paciente circula entre profissionais sem sair do seu acompanhamento.

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