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Anamnese infantil em psicologia: modelo de perguntas para a entrevista com os pais

Um roteiro de anamnese infantil dividido em blocos, com o que muda quando os pais são separados ou discordam e o que precisa ficar no prontuário.

29/10/2026 • 9 min

Um bom modelo de anamnese infantil organiza a entrevista com os pais em blocos fixos: queixa, gestação e parto, desenvolvimento, saúde, escola, rotina, telas e dinâmica familiar. Assim você cobre a história da criança sem depender da memória e sem transformar a primeira conversa em interrogatório.

A anamnese do adulto parte do relato do próprio paciente. Na infantil, a história chega filtrada por quem cuida, e cada responsável traz a sua versão. O roteiro serve para separar o que é fato, o que é percepção e o que ainda falta perguntar.

Abaixo está o modelo por blocos, os ajustes para pais separados ou em desacordo e o que registrar depois.

Como estruturar a anamnese infantil por blocos?

Comece pela demanda e deixe a história pregressa para depois. Pais costumam chegar ansiosos para contar o motivo da procura, e interromper isso para perguntar sobre o parto quebra o vínculo logo no início.

Uma ordem que funciona na prática:

  • queixa e motivo da procura;
  • gestação, parto e primeiros meses;
  • desenvolvimento motor, de linguagem e de controle esfincteriano;
  • saúde, sono e alimentação;
  • escola e socialização;
  • rotina, brincar e uso de telas;
  • dinâmica familiar e eventos marcantes.

Quais perguntas fazer sobre a queixa e a gestação?

Sobre a queixa, interessa menos o rótulo e mais a descrição concreta:

  • O que vocês observam que os preocupa? Desde quando?
  • Em que situações isso aparece e em quais não aparece?
  • Quem percebeu primeiro: a família, a escola, o pediatra?
  • O que já tentaram fazer e o que aconteceu?
  • Por que procurar ajuda agora?

Sobre gestação e primeiros meses:

  • A gravidez foi planejada? Como foi recebida pela família?
  • Houve intercorrências na gestação ou no parto?
  • Como foram a amamentação e o sono no primeiro ano?

O que perguntar sobre desenvolvimento, saúde e escola?

Aqui o objetivo é situar marcos e mudanças, não avaliar os pais:

  • Quando começou a andar e a falar? Alguém notou atraso ou regressão?
  • Como foi o desfralde? Houve retorno a fases anteriores em algum momento?
  • Tem diagnóstico, uso de medicação ou acompanhamento com outro profissional?
  • Como são o sono e a alimentação hoje?
  • Com que idade entrou na escola? Como foi a adaptação?
  • O que a escola relata sobre aprendizagem, comportamento e amizades?

Se houver relatório escolar ou de outro profissional, peça uma cópia. Ela entra no registro como documento recebido, com data e origem.

Como perguntar sobre rotina, telas e dinâmica familiar?

Rotina e telas costumam explicar boa parte das queixas de sono, irritabilidade e atenção. Pergunte de forma descritiva, sem tom de julgamento:

  • Como é um dia comum, do acordar ao dormir?
  • Quanto tempo passa em telas, em que horários e com que conteúdo?
  • Quem define as regras de tela e o que acontece quando são quebradas?
  • Do que a criança mais gosta de brincar?

Na dinâmica familiar:

  • Quem mora com a criança? Quem participa do cuidado diário?
  • Houve mudança de casa, de escola, nascimento de irmão, separação ou perda?
  • Como a família lida com limites e com conflitos?
  • Como vocês acham que a criança vê o que está acontecendo?

O que muda quando os pais são separados ou discordam?

Com pais separados, a anamnese vira duas histórias. O ideal é ouvir cada responsável e decidir com eles se a entrevista será conjunta ou individual, conforme o nível de conflito.

Alguns ajustes no roteiro:

  • pergunte quem detém a guarda e como é a convivência com cada um;
  • registre a versão de cada responsável separadamente, sem harmonizar o que diverge;
  • pergunte o que cada um espera do atendimento;
  • combine desde o início quem recebe lembretes, recibos e comunicações.

A divergência entre os pais é dado clínico, não erro de preenchimento. Quem autoriza o atendimento e como documentar isso está detalhado no post sobre terapia infantil com pais separados.

Há um limite que não depende do roteiro: o artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990) determina que a suspeita ou confirmação de castigo físico, tratamento cruel ou degradante e maus-tratos seja obrigatoriamente comunicada ao Conselho Tutelar.

O que registrar no prontuário depois da anamnese infantil?

A Resolução CFP nº 001/2009 (alterada pela Resolução CFP nº 005/2010) lista, no artigo 2º, o que o registro documental deve conter. Para a anamnese, os itens diretamente ligados são:

  • identificação do usuário;
  • avaliação da demanda e definição dos objetivos do trabalho;
  • registro da evolução e dos procedimentos técnico-científicos adotados;
  • cópias de documentos produzidos pelo psicólogo, com data, finalidade e destinatário.

Dois pontos da mesma resolução pesam no atendimento infantil. O artigo 5º, inciso II, garante ao usuário ou ao seu representante legal acesso integral às informações do prontuário, então escreva pensando que os pais podem ler. E o artigo 4º, § 1º, fixa guarda mínima de cinco anos, prazo que pode ser ampliado nos casos previstos em lei ou por determinação judicial.

Na prática, registre de forma sucinta: quem participou da entrevista, a demanda nas palavras de cada responsável, os marcos relevantes, as hipóteses iniciais e os objetivos combinados. Use linguagem técnica e, ao mesmo tempo, acessível a quem não é da área.

Como transformar o roteiro em rotina no consultório?

Roteiro bom é roteiro que você usa sempre igual. Transforme os blocos em um formulário fixo de primeira entrevista, com campos para cada pergunta e um campo de "pendente" em cada bloco.

O formulário rende em três momentos:

  • na primeira entrevista, para não esquecer nenhum bloco;
  • nas sessões seguintes, para retomar o que ficou em aberto;
  • na devolutiva, para comparar a queixa inicial com o que você observou.

Esse último uso é o que mais economiza tempo. Com a anamnese estruturada, preparar a devolutiva para os pais vira reler e comparar, não reconstruir a história de memória.

Um sistema de gestão com prontuário eletrônico permite salvar esse formulário como modelo, preencher direto na sessão e manter anamnese, evolução e documentos recebidos no mesmo registro da criança.

Conclusão

A anamnese infantil funciona melhor como estrutura fixa: queixa primeiro, história depois, e cada bloco com espaço para o que ficou pendente. Com pais separados, ouça e registre cada versão sem forçar consenso.

Escreva o prontuário sabendo que os responsáveis podem ter acesso a ele, siga o que a Resolução CFP nº 001/2009 pede e use o mesmo formulário da primeira entrevista até a devolutiva.

Este blog é do Singular Psi, o sistema para psicólogos com prontuário, agenda e financeiro em um só lugar.

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