Legal e Conformidade
Contrato terapêutico: as cláusulas essenciais (faltas, reajuste, sigilo e online)
Um contrato claro evita conflitos sobre faltas, reajuste e sigilo. Veja, cláusula a cláusula, o que incluir no contrato terapêutico e o que o CFP orienta para o atendimento online.
O contrato terapêutico é o documento que formaliza a prestação de serviços psicológicos: quem atende, qual serviço está sendo contratado, quanto custa, como funcionam faltas e cancelamentos, quais são os limites do sigilo e como o vínculo pode ser encerrado. Este guia funciona como um contrato terapêutico modelo comentado, cláusula a cláusula, para você adaptar à sua prática.
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005) orienta que os acordos de prestação de serviço respeitem os direitos de quem é atendido — na prática, isso significa combinados claros, por escrito sempre que possível, e sem cláusulas abusivas. Para o atendimento online, a Resolução CFP nº 09/2024 prevê expressamente a formalização de contrato na prestação de serviços mediada por tecnologias digitais.
Vários Conselhos Regionais, como o CRP-PR e o CRP-DF, publicam sugestões de contrato em seus sites. Use o roteiro abaixo para entender o papel de cada cláusula e montar a sua versão.
O que um contrato terapêutico precisa ter?
Um contrato completo cobre sete blocos:
- Identificação das partes (psicólogo e paciente ou responsável legal)
- Objeto: qual serviço, em qual modalidade, com qual frequência
- Valor, forma de pagamento e critério de reajuste
- Política de faltas, cancelamentos e reposições
- Sigilo profissional e suas exceções
- Regras específicas do atendimento online
- Condições de rescisão e encerramento
Nas seções seguintes, cada bloco vira uma cláusula comentada.
Identificação das partes e objeto do serviço
Na identificação, inclua seus dados completos: nome, CPF, número de inscrição no CRP e endereço de atendimento. Do lado do paciente, nome, CPF e contato. Se o paciente for menor de idade, quem assina é o responsável legal. Se você atende por meio de pessoa jurídica, a Resolução CFP nº 09/2024 pede que o contrato também traga os dados da instituição ou empresa vinculada ao serviço.
No objeto, descreva o serviço com precisão: psicoterapia individual, atendimento de casal, avaliação psicológica, orientação profissional. Registre a modalidade (presencial, online ou híbrida), a frequência e a duração das sessões.
Um ponto que os CRPs reforçam: deixe claro que não é possível garantir resultados. Psicoterapia é processo, e prometer desfecho específico fere a ética profissional.
Valor, forma de pagamento e reajuste
Especifique o valor por sessão (ou por pacote mensal, se for o caso), as formas de pagamento aceitas e a data de vencimento. Se emite recibo ou nota fiscal, mencione.
Para o reajuste, defina dois pontos: a periodicidade (anual é o formato mais comum) e a forma de comunicação, com antecedência razoável — 30 dias é um parâmetro justo. Qualquer alteração em contrato já assinado deve ser feita por termo aditivo, discutido e assinado pelas duas partes. Isso evita a situação desconfortável de reajustar "no susto".
Política de faltas e cancelamentos
Esta é a cláusula que mais previne conflito. Defina:
- Prazo mínimo de aviso para cancelar ou remarcar (24 horas é o parâmetro mais comum, adotado inclusive em sugestões de contrato de Conselhos Regionais, como a do CRP-DF)
- O que acontece com falta sem aviso dentro do prazo: cobrança integral, parcial ou reposição
- Como funcionam atrasos: a sessão termina no horário previsto ou é reposta?
- Limite de remarcações por mês, se você adotar
Cobrar falta só é defensável se a regra estava escrita e foi aceita antes. Sem contrato, a cobrança vira desgaste — e, com frequência, perda do paciente.
Sigilo e suas exceções
O sigilo é dever do psicólogo, previsto no artigo 9º do Código de Ética, e protege tudo o que o paciente traz para a sessão. O contrato não cria exceções novas: ele informa as que já existem. O artigo 10 admite a quebra de sigilo em situações excepcionais, baseada na busca do menor prejuízo e restrita às informações estritamente necessárias, além dos casos previstos em lei.
Vale também uma cláusula sobre proteção de dados: a LGPD (Lei nº 13.709/2018) classifica informações de saúde como dados sensíveis. Informe onde os registros ficam armazenados e quem tem acesso a eles.
Atendimento online: o que a Resolução CFP 09/2024 pede
A Resolução CFP nº 09/2024 regulamenta os serviços psicológicos mediados por tecnologias digitais, revogou as Resoluções nº 11/2018 e nº 04/2020 e dispensou o cadastro obrigatório na plataforma e-Psi. Ela prevê a formalização de contrato e pede que o profissional informe quais recursos tecnológicos utiliza para garantir o sigilo das informações.
Na prática, a cláusula de atendimento online deve cobrir:
- Qual plataforma de videochamada será usada e por quê
- O que fazer em caso de queda de conexão (retomar, remarcar, compensar tempo)
- Compromisso de ambiente privado dos dois lados da tela
- Proibição de gravação da sessão sem consentimento expresso
- Contato de emergência e cidade onde o paciente se encontra
Rescisão e encerramento
O paciente pode interromper o serviço a qualquer momento — esse direito precisa constar, e nenhuma multa de fidelidade é aceitável. Combine um aviso prévio razoável, o acerto de sessões em aberto e, quando o encerramento partir de você, o compromisso de encaminhamento adequado para que o cuidado não seja interrompido de forma abrupta.
Onde guardar o contrato assinado
O contrato assinado deve ser arquivado junto ao prontuário do paciente. A Resolução CFP nº 001/2009 determina que o registro documental seja guardado em local seguro, por no mínimo cinco anos — prazo que pode ser ampliado por determinação legal ou judicial.
É aqui que um sistema de gestão para psicólogos faz diferença: o contrato digitalizado fica anexado ao prontuário eletrônico, com controle de acesso; a política de faltas se reflete na agenda e nos lembretes automáticos de sessão; e o financeiro registra cobranças e reajustes exatamente como o contrato define. Em vez de papel espalhado entre pastas e conversas de WhatsApp, tudo fica em um só lugar, protegido e fácil de recuperar se algum combinado for questionado.
Conclusão
Um bom contrato terapêutico não burocratiza o vínculo — ele o protege. Identificação, objeto, valor e reajuste, faltas, sigilo, regras do online e rescisão: com esses sete blocos por escrito, você atende ao que o Código de Ética e a Resolução CFP nº 09/2024 esperam e elimina as conversas difíceis que nascem de combinados vagos.
Parta das sugestões publicadas pelo seu Conselho Regional, adapte as cláusulas à sua prática e guarde o documento assinado junto ao prontuário. O contrato só cumpre o papel se estiver acessível quando você precisar dele.
Este blog é do Singular Psi, o sistema para psicólogos com prontuário, agenda e financeiro em um só lugar.