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CIF na fisioterapia: como usar a classificação de funcionalidade na avaliação e no prontuário
A COFFITO 370/2009 manda adotar a CIF, mas pouca gente sabe levá-la para a ficha. Veja como codificar a avaliação, qualificar cada achado e usar isso no plano, no convênio e na alta.
Usar a CIF na fisioterapia é registrar o que a avaliação encontrou em quatro blocos (funções e estruturas do corpo, atividades, participação e fatores ambientais) e dar a cada achado um qualificador que mede o tamanho do problema. A Resolução COFFITO nº 370/2009 determina que o fisioterapeuta adote a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, da OMS, com uso clínico, estatístico, de pesquisa, pedagógico e de política social. Na prática, a CIF fisioterapia entra depois do diagnóstico fisioterapêutico e organiza o raciocínio que você já faz.
O problema é que a resolução diz o quê, mas não diz como. A maioria das fichas cita a CIF no cabeçalho e segue descrevendo tudo em texto livre. Este post mostra como levar a classificação para a ficha de avaliação e para a evolução sem transformar o atendimento em burocracia.
O que a COFFITO 370/2009 exige do fisioterapeuta?
Segundo a Resolução COFFITO nº 370/2009, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais adotam a CIF dentro de suas competências. O texto prevê três pontos que importam no consultório:
- Aplicar a CIF após o diagnóstico fisioterapêutico, na versão atualizada da classificação e de sua derivada.
- Adotar o modelo multidirecional da CIF no atendimento, em que condição de saúde, corpo, atividade, participação e contexto se influenciam.
- Usar a CIF nos serviços de fisioterapia para formar bancos de dados de saúde.
Ou seja: a CIF não substitui o diagnóstico fisioterapêutico nem a Classificação Brasileira de Diagnósticos Fisioterapêuticos (CBDF), que a Resolução COFFITO nº 610/2025 define como padrão para codificar o diagnóstico. Ela é a camada que descreve a funcionalidade da pessoa de um jeito que qualquer outro profissional, auditor ou perito entende.
Como transformar a avaliação em categorias da CIF?
Pegue o que você já mede e distribua nos componentes da classificação. Cada componente tem uma letra-prefixo na CIF:
- b (funções do corpo): dor, mobilidade articular, força, controle motor. Ex.: b280 sensação de dor, b710 mobilidade das articulações, b730 força muscular.
- s (estruturas do corpo): a estrutura acometida. Ex.: s750 estrutura da extremidade inferior.
- d (atividades e participação): o que o paciente faz ou deixa de fazer. Ex.: d450 andar, d430 levantar e carregar objetos, d850 trabalho remunerado.
- e (fatores ambientais): o que ajuda ou atrapalha. Ex.: e120 produtos e tecnologias para mobilidade pessoal, e310 família imediata.
Não é preciso codificar tudo. Escolha poucas categorias que expliquem a queixa e que você vá acompanhar: três a seis costumam bastar para um caso ortopédico comum. Categoria que ninguém reavalia vira ruído.
Como usar os qualificadores sem errar?
Uma categoria da CIF só vira código com o qualificador. Na escala genérica da classificação, o qualificador vai de 0 (nenhum problema) a 4 (problema completo), passando por ligeiro, moderado e grave. O 8 marca "não especificado" e o 9, "não aplicável".
Algumas regras práticas:
- Ancore o qualificador em medida. EVA, goniometria, teste de força e testes funcionais justificam o número. "b280.2" sem a EVA ao lado não se sustenta.
- Em atividades e participação, separe desempenho de capacidade. Desempenho é o que o paciente faz no ambiente real; capacidade, o que consegue em condição padronizada. A diferença entre os dois mostra o peso do ambiente.
- Em fatores ambientais, diga se é barreira ou facilitador. A CIF usa o ponto para barreira e o sinal "+" para facilitador (ex.: e310+2).
O ganho aparece na reavaliação: d450 passou de 3 para 1 é uma frase que dispensa parágrafo.
Como a CIF justifica plano, convênio e alta?
A codificação feita na avaliação vira a espinha dos documentos seguintes.
- Plano de tratamento: cada objetivo aponta para uma categoria e um qualificador-alvo. "Reduzir d450 de 3 para 1 em oito semanas" é meta mensurável, e a conduta se explica pelo que ela pretende mudar.
- Renovação de sessões no convênio: o pedido fica mais forte quando mostra a evolução por categoria. Qualificador que caiu, mas ainda não chegou à meta, explica por que o tratamento continua. Confira sempre as exigências de cada operadora, porque o formulário e os critérios variam.
- Relatório de alta: compare os qualificadores da primeira avaliação com os da última. O relatório passa a mostrar o que mudou na funcionalidade, não só a lista de condutas aplicadas.
Para pesquisa e gestão, é o mesmo dado: com as categorias registradas de forma padronizada, dá para levantar quantos pacientes com limitação em d450 tiveram alta com melhora, sem reler prontuário por prontuário. É o banco de dados que o art. 4º da Resolução COFFITO nº 370/2009 menciona.
Quais campos da CIF colocar na ficha de avaliação?
Inclua um bloco "Funcionalidade (CIF)" logo depois do diagnóstico fisioterapêutico, com estes campos:
- Condição de saúde: diagnóstico clínico de referência, se houver.
- Funções e estruturas (b/s): código, descrição, qualificador e medida que o sustenta.
- Atividades e participação (d): código, descrição, qualificador de desempenho e, quando avaliado, de capacidade.
- Fatores ambientais (e): código, barreira ou facilitador e qualificador.
- Fatores pessoais: texto livre (idade, ocupação, hábitos), já que a CIF não os codifica.
- Categorias-alvo: quais códigos o plano vai acompanhar e o qualificador esperado.
Na evolução, não repita a avaliação inteira. Basta um campo curto por sessão de reavaliação com as categorias-alvo e o qualificador do dia.
Como encaixar a CIF na rotina do consultório?
O que trava a CIF no consultório é o atrito do registro: procurar código em PDF, redigitar a mesma categoria em cada reavaliação, montar o relatório de alta copiando tabelas da ficha. Isso some quando o prontuário eletrônico guarda as categorias-alvo e as traz prontas para a próxima sessão.
Um sistema de gestão que une ficha de avaliação, evolução e relatório no mesmo prontuário deixa a comparação entre a primeira e a última reavaliação visível. Você ganha tempo e o documento do convênio sai consistente.
Conclusão
A CIF na fisioterapia não é um anexo da ficha: é a forma de descrever a funcionalidade do paciente que a Resolução COFFITO nº 370/2009 manda adotar. Escolha poucas categorias, qualifique cada uma com base em medida e use esses códigos como linha de base do tratamento.
Feito isso uma vez, plano, pedido de renovação e relatório de alta passam a contar a mesma história em linguagem comum a qualquer profissional. O registro fica mais curto, mais claro e mais fácil de defender.